Aconteceu, então, que naquele dia, posto 11 horas na noite de Solima, antípoda a este, o homem pôs-se a pensar. Interrompera a labuta comum para que se lhe viessem idéias de grandes feitos. Este, agraciado então pelos anjos, gozava do tempo melhor contado e mais exato. Pusera-se nele, pelas mãos da Menina-Anjo, as vestes da confiança e do pudor. Tinha, por isso mesmo, esperança mais perfeita, horizonte maior e tempo delimitado pelo sol que a ele era mostrado, pois que lhe era permitido divisar a meia-altura das regiões do Eterno.
Engrandecido por tais obséquios divinos, quis ele caminhar por onde não lhe era entendido. Eis que se lhe apresentava luz ao caminho sem, contudo, que sua vista interpretasse a clara imagem do que trilhava. Subiu só. Buscou o que lhe era vetado pela vontade angelical da Menina. E encontrar era sua meta, sem olhar para trás ou para o alto. Fez idéia de si mesmo e, tomando fatos por sua falha lei e sua pequena vivência, pois que era homem, cheio de confiança e de si, apresentou-se a um dos lagos de sapiência divina. Tomou para si o que buscava. Viu, não menos perto, outras das letras que lhe interessava. Ao erguer a si, porém, a primeira, estremeceu e teve receio. Percebera que já havia chegado longe demais. Sem a Menina-Anjo, nada era tão claro e se lhe ofuscava a vista. Teve medo, deixou intocadas as letras, mas já sobraçava uma delas; no que desceu às regiões de luta.
Orgulhoso, mas temente, aguardou. Tinha consigo o que não lhe foi oferecido. A verdade total é clara como o sol. A homens como ele, não é possível enxergar. Sabia que o oposto da luz é uma luz mais forte, não as penumbras. Pois que o sol encobre as estrelas, mas o negro da noite não as impedem de serem vistas.
Temia, mas orgulhava-se.
A seu tempo, veio a Menina-Anjo. Ela desceu. Viu-o e ele sorria.
No primeiro momento, disse que havia lhe sondado a natureza, no que ela assustou-se.
- Tomei para mim essa letra. Veio ela de onde ficas. Toma-a cá, mas que já me é sabida, em tempo; não posso mais esquecê-la.
- Como conseguiste a tal, pois que é natural das Alturas? - perguntou a Menina-Anjo.
- Consultei os potentes - quis ele inventar a gracejo - e ma deram.
- Não tens verbo para tal!
A Menina-Anjo vê a verdade do alto puro que não se mistura com a nuvem de enganos do campo baixo.
- Confesso-te a verdade, Anjo meu, pois que nada lhe turva a mente. Subi só às Alturas usando da graça que me ofereceste. Lancei mão da letra de um dos lagos da sapiência. Arrependo-me agora, porque eu bem sabia que não poderia. Perdoa-me que meu coração não queria irar-te.
- Tolo! - bradou ela. Não te depositei minha confiança para que a traísses! Como pôde? Levei-te às regiões Altas, confiei-te em meu seio, participei-o no regaço de um lugar onde homem outro não esteve. Lacera-me o coração com teu abuso!
- Perdoa-me! Perdoa-me! - bradava ele em desespero, agora enxergando seu erro. Não quis magoar-te!
- Pisaste em solo que ainda não é teu. Como posso agora acreditar que não tornarás ao erro?
Traído por sua confiança. Traído pelo sentimento baixo dos homens que acreditam ser todo seu o que lhe participam os anjos. Ela o trazia às regiões do Divino, mas sempre foi notável que não lhe pertencia ali. Erro vulgar. Olhavam-lhe, destarte, um pouco da Potestade que ombravam a Menina-Anjo. Ela tinha olhos de pena e de decepção.
- Perdoa-me que não torno a errar, Anjo querido. Vê minha face e divisa-me o arrependimento.
- É tarde... Eis a letra contigo.
Ele deixou-a. A letra estava posta ao chão. A Menina-Anjo pegou-a e esta se fez morta. Letra-morta. Pois que o que não é para que o homem alcance, caso alcance por sua vil curiosidade, eis que morre, pois o sentido maior é ignorado pela incompreensão do coração humano jocoso. Fizeram outros esta feita. Fizeram ainda pior. A Letra do Senhor, outrora, foi pêga por curiosidade muita, sem fé, porém. Nenhum sentido fez. Melhor ventura teve aquele que confiou nela sem questionar os porquês que ainda não lhe era tempo de entender.
- Devias confiar em mim. - disse ela com dor. Devias acreditar que a esta e outras verias, se soubesses esperar seu tempo. Quando eu pudesse lhe trazer ao Alto, eis que estarias preparado. Em minha companhia, olhando-me à altura do olho, disporia desta e de outras. Mas não entendeste. Não confiaste. Não esperaste seu tempo.
- Dá-me teu perdão, amada!
- É tão tarde quanto cedo para perdoar-te. Justamente tu, a quem confiei minha companhia de perto...
A mágoa da Menina-Anjo lhe feria como punhal. Mas estava certo do seu erro. Olhando os olhos dela, tudo se fazia mais claro. Sempre se fez. Não seria diferente com sua falha. Falha vulgar, maldita e infame falha, que por tão óbvia que era, mais horrorosa se fazia. Tão óbvia quanto o erro dos que têm consciência de que se está errando. Menor escândalo faz o erro naquele que não sabe o que faz. Mas o homem sabia. A todo tempo sabia. Quis que ela sorrisse com sua pequena e recém adquirida capacidade. Mas ela não sorriu. Todo erro é erro por menor que seja. E ele havia errado. Consciente.
Ainda assim, ela se compadeceu dele.
- Tem piedade de mim, meu Anjo, que temo que não venhas mais me ver. - disse ele com o rosto no solo, de joelhos.
- Eis que tomo a decisão justa, homem. Teirar-te-ei tuas vestes de confiança e pudor. E não as verás mais, até que faças por merecê-las outra vez.
Como todo homem humano no campo de luta, estava ele nu, agora.
- Não terás mais a minha visão com freqüência costumeira. Eis que é tempo de minhas tarefas. Deixar-te-ei só e do alto apenas me verás, até que o teu trabalho a mim me desperte ensejo de atenção. Segue na labuta comum. E não me afaste de ti sendo como estes outros que por mim se alimentam, sem sequer sentirem minha presença. Viste minha luz. Olhaste-me nos olhos. A ti entreguei o que confio. Não creia que outros em seu campo me sabem como tu o sabes, porque não sabem. Esperarei que entendas isso. Esperarei o que outrora me fez olhar-te. Tomaste-me em teu carinho. Velaste-me o sono. Confiaste, acima de tudo. Espero tua confiança em mim, como outrora foi certa, como em nós acreditei certeza. Não estragues o que tu mesmo construíste. Não me afaste de ti por eu acreditar que és tão vulgar e comum como os comuns. Não tu, em quem acreditei. Fica, contudo, meu "até breve", pois que te faço mais um voto de confiança. Não me afaste de ti...
Qual Titã que houvera roubado a chama da sabedoria dos deuses para entregar aos homens, ele estava só. Só... Ela partiu e ainda lhe deixara carinho. Ela tem o coração mais perfeito. E havia visto mais ignorância que maldade. Sem, contudo, entender, por que ele havia falhado em algo que conhecia. Ela partiu...
O homem, envergonhado e arrependido, não se levantou, nem tornou à labuta. Recolheu-se, simplesmente. A noite caiu. Dia se fazia em Solimo. Enquanto a Menina-Anjo se refazia e se preparava para o vôo perfeito imortal, ele sequer dormia. Chorou. Mais uma vez, chorou. Chorou muito em seu íntimo. Cansado e sem querer descanso, abriu o Livro do Tempo e registrou em palavras a sua queda. Resta-lhe a espera.
Vive, agora, o homem, o que lhe resta das horas. Sangrando, seu coração fá-lo lembrar da promessa de ser homem, até que a amada Menina-Anjo retorne e lhe tome nos braços.